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Entempo

Portal Radio Islam

    O portal Radio Islam foi criado em 1996 por Ahmed Rami, um ex-tenente do exército marroquino, a partir de sua estação de rádio de mesmo nome, na Suécia. Registrado nos EUA, sua configuração inclui informações do site, descrições e argumentos sobre o sionismo, revisionismo, judaísmo e cristianismo, o poder judaico no mundo, a “verdade” sobre o holocausto, a revolução marroquina, além de álbuns fotográficos, caricaturas, gravuras, charges, protestos e espaço de opiniões, estando disponível em mais de 22 idiomas, inclusive indonésio e croata.

    Ahmed Rami apresenta o site como um fórum de debates sobre o racismo contra judeus e não-judeus e um espaço promotor das relações entre o Ocidente e o mundo árabe islâmico. Porém, o portal intitula-se “a mãe de todos os sites anti-judeus”. Há em seu conteúdo forte propaganda anti-semita, apologia ao ódio racial e a promoção de espaços virtuais de sociabilidade para facções neofascistas. A propaganda revisionista e a veiculação dessas idéias é uma característica peculiar do site, ocupando espaço significativo no portal.

    Sua versão em português está dividida em onze grandes seções, contendo cada uma delas, outras sub-seções com artigos, imagens e propaganda sobre a ideologia do site. Os temas destas seções são: Introdução; Racismo Judaico; Sionismo; Poder Judaico; Judeus Khazares; Os Protocolos de Sião; Revisionismo; Marrocos; Miscelâneos; O Fórum; Radio Islam Vai Surfar.

    A seção Introdução explica o que é o site Radio Islam e qual seu objetivo. Está dividida em subseções como “Mais sobre a Radio Islam”, “O Idealismo da Radio Islam”, “Radio Islam: a mãe de todos os sites anti-Judeus”, “Em face de uma guerra que nos é imposta, o que devemos fazer?”, “Um Complô contra a Radio Islam” e “Reclamações sobre a Radio Islam”. Estas subseções, em termos gerais, além de conterem informações anti-semitas, propagam a idéia de que os judeus são inimigos dos quais a população mundial precisa se proteger urgentemente. Também tecem abordagens mais precisas sobre os reais objetivos da Emissora de rádio Radio Islam e do portal, colocando-os em posição de vítimas de complôs judaicos contra sua atuação quais “denunciadores”.

    Em Racismo Judaico, os tópicos abordados neste item são: “Nos assuntos do rancor judaico à Cristandade (pelo professor Shahak)”, “O racismo judaico contra não-judeus conforme expresso no Talmude” e “Depoimentos do Professor Shahak sobre o rancor judaico à Cristandade”. Eles expõem, segundo Rami, o suposto ódio que os judeus sentem dos cristãos e como as crianças judias são ensinadas a desonrarem símbolos da cristandade. Apresentam o Talmude contendo capítulos e versículos repletos de comentários depreciativos sobre povos não-judeus, além de expor o livro de Shahak como promotor do desprezo aos gentios, termo que qualifica pessoas não judias.

    O Sionismo é outra seção do Radio Islam divida em mais subseções: “Mais sobre o Sionismo”, “Uma declaração sensacional dos judeus fiéis à Torah (New York Times 30/09/1997)”, “A conspiração sionista”. Novamente os judeus são alvo de agressões verbais em que os sionistas são definidos por Ahmed Rami como um povo apartado dos outros povos – vivendo uma espécie de Apartheid –, anti-árabes, anti-mulçumanos, anti-alemães e engajados no objetivo de conquistar toda península arábica, fragmentando seus Estados para dominá-los. Argumenta, inclusive, que os judeus fiéis à Torah abominam as idéias sionistas e consideram-nos como hereges do judaísmo. Dentro desses subitens, o navegador tem acesso a fotografias usadas por Rami para reforçar suas idéias.

    Na seção Poder Judaico, há também subseções intituladas, “Os judeus que administram a corte de Clinton (Maariv – jornal diário de Israel 02/09/1994)”, “A lavagem de dinheiro das drogas pelos judeus, o maior jornal israelense Maariv revela!”, “Competição por recursos entre judeus na Europa após a emancipação judaica (pelo Kevin Macdonald)”, “Os embaixadores judeus de Clinton”, “Judeus dirigem Hollywood – e daí? (revista judaica de ponta admite o domínio judaico em Hollywood)”, “Donos do Banco Central dos EUA”, “Máfia judia tomando a televisão da Ucrânia e da Europa Oriental (pelo Michael A. Hoffman II)”, “Pequena lista de bilionários judeus”, “Pequena lista de comunistas judeus”, “Prova estatística do predomínio judaico na Rússia Vermelha”, “O que George Washington e Benjamin Franklin disseram sobre os judeus”, “A entrevista do general Remer” e “A verdade sobre a ‘retratação’ de Ford”.

    Nestas subseções, Rami apresenta as esferas de poder que para ele sofrem ou sofreram grande influência judaica, como a política norte-americana durante o Governo Clinton, o tráfico de drogas e pedras (principalmente diamantes), a mídia, além de listas com nomes de comunistas (pelo menos 70, incluindo pessoas destacadas como Marx, Lênin e outros), bilionários (24 em 12 países) e banqueiros (8) nos EUA. Aponta Hollywood como dominada pelos sionistas desde os setores empresariais à recorrência de filmes com conteúdo semita.

    Também Apresenta trechos da entrevista do aposentado Major-General Remer, do exército de Hitler, ao jornal Alshaab no qual afirma que a morte de seis milhões de judeus na Alemanha nazista foi invenção. Menciona George Washington e Benjamim Franklin preocupados em proteger os EUA dos semitas. Cita a retratação de Henri Ford sobre seu livro “O judeu internacional” – de maciço conteúdo racista e anti-semita – como se fosse uma obliteração da verdade.

    Na seção Os Protocolos dos Sábios de Sião, o Radio Islam disponibiliza aos seus navegadores uma versão deste suposto dossiê em sete idiomas (inglês, francês, alemão, sueco, português, russo e espanhol). Dividido em duas partes, com vinte e quatro capítulos, trata-se de um alegado esboço com idéias e estratégias de dominação desenvolvidas pelos sionistas para dominarem o mundo.

    “O direito reside na força, a liberdade é uma idéia, o despotismo do capital, o inimigo interno, o direito do mais forte, o poder judaico-maçônico é invencível, o fim justifica os meios, a multidão é cega, a devassidão, o terror, a destruição dos privilégios da aristocracia dos cristãos, cálculo psicológico, abstração da liberdade, removibilidade dos representantes do povo, comércio, política, religião e mídia”, são apenas alguns dos inúmeros tópicos contidos neste documento, que segundo o Radio Islam, informa e orienta os judeus a exercerem controle sobre a sociedade.

    A seção Os Judeus Khazares, baseada num suposto levantamento histórico feito pelo Dr. Alfred M. Lilienthal, apresenta argumentos de que os judeus não são uma raça definida. Após seu exílio em Babilônia, em 607 a.C., sua linhagem semita e já misturada com os povos de Cannaã foi se misturando ainda mais e variando, ao ponto de não mais ser possível traçar uma linhagem comum que os definisse como raça. Alguns desses povos que se espalharam após o exílio babilônico, chegaram até a região de Khazaria (atualmente parte da Rússia) e fixaram-se ali, com governo, sociedade e economia próprios. Autodenominaram-se judeus em função da religião (judaísmo) e após constantes invasões, espalharam-se pelo mundo – principalmente o ocidente – levando consigo o rótulo de raça judaica.

    O revisionismo histórico, segundo Carlo Ginzburg, é uma reinterpretação de fatos elaborando explicações contrárias às amplamente aceitas sobre os mesmos (GINZBURG, 2006:213). Neste ponto, o Revisionismo histórico encontrado no site Radio Islam tenta (re)explicar o Holocausto tomando como base as teorias de revisionistas como: Robert Faurisson, ex-professor de literatura da Universidade de Lyon; do escritor Richard Harwood (Richard Varral); Arthur R. Butz, professor de engenharia elétrica da Universidade de Northwestern; Bradley R. Smith, ex-diretor de mídia do Instituto de revisão Histórica (EUA) e fundador do CODOH (Fórum de Debates sobre o Holocausto); Carlos Withlock Porter, tradutor, membro do Instituto de Lingüística de Londres; Ernst Zündel, conhecido neonazi, além do próprio Ahmed Rami.

    Ao abordar o assunto, o Radio Islam oferece dez subseções, dentro da seção Revisionismo: “As vitórias do Revisionismo (Robert Faurisson)”, “O que é Revisionismo (Robert Faurisson)”, “Seis milhões realmente morreram? (Richard Harwood)”, “66 perguntas e respostas sobre o Holocausto (Ahmed Rami)”, “Pequena introdução ao estudo do Revisionismo do Holocausto (Arthur R. Butz)”, “Aquilo em que acredito, aquilo em que não acredito e por que (Bradley R. Smith)”, “Não culpados em Nuremberg (depõem os defensores dos alemães em Nuremberg – Carlos Porter)”, “Elie Wiesel: Uma Notável Testemunha Falsa (Robert Faurisson)”, “Genocídio por Telepatia, Explica Hilberg (Robert Faurisson)”, “Introdução ao pensamento revisionista (Ernst Zündel)”, “Além de livros, artigos e entrevistas, em inglês”.

    A partir disso, uma série de explicações elaboradas nega a ocorrência do Holocausto ou das câmaras de gás dos campos de concentração nazistas, oferecendo supostas “provas” de que as mortes, torturas e inúmeras atrocidades não passam de uma invenção sionista. Os revisionistas propõem uma (re)interpretação do genocídio semita durante a II Guerra Mundial, desacreditando a história oficial através de alegações limitadas e infundadas.

    Marrocos é uma seção do site dedicada a revolução marroquina na década de 1970. Nela houve uma tentativa de golpe militar, que pretendia por fim a monarquia e estabelecer a república. Ahmed Rami participou desta luta e usa este espaço para falar de sua experiência pessoal e criticar o governo de Hassan II.

    Em Miscelâneos, há três subseções: “A extorsão sionista contra a Suíça”, “Álbum de fotografias” e “Cartoons – caricaturas”. O objetivo é mostrar aos navegadores que a organização sionista usa o discurso de vítima do holocausto, para extorquir dinheiro de países europeus, neste caso a Suíça. Com medo de alguma retaliação dos judeus, os banqueiros acabam liberando dinheiro das contas de judeus que morreram na Alemanha nazista para os sionistas.

    O álbum de fotografias e os cartoons oferecem imagens e figuras do conflito árabe-israelense, homicídios em massa, acordos políticos, enfim, fotos e desenhos que tanto colocam os judeus em posição de algozes dos Palestinos e manipuladores da política mundial, quanto os depreciam.

    As seções Fórum e Radio Islam vai surfar são de caráter interativo. A primeira é um espaço para debates sobre os assuntos já mencionados, disponível em inglês, francês e suíço. A outra é uma lista de links relacionados a estes assuntos. Ambas com o propósito de inteirar os navegadores do site sobre os perigos dos sionistas e da dominação judaica.

    Dessa forma, o Radio Islam é claramente um site racista, anti-semita, de idéias direitistas e um espaço de sociabilidade para neonazistas. Durante o período de visitação (janeiro de 2009 a julho de 2010), catalogação e análise do portal, não houve alterações em seu conteúdo. As mudanças apresentadas até o momento são de caráter estético.

    Karla Karine de Jesus Silva
    Mestra em História pala Universidade Federal de Sergipe

    Referência Bibliográfica:
    GINZBURG, Carlo. Unus testis – O extermínio dos judeus e o princípio da realidade. In: O fio e os rastros verdadeiro, falso, fictício. Tradução de Rosa Freire d’Aguiar e Otávio Brandão. São Paulo: COMPANHIA DAS LETRAS. 2006. p. 210-230.

    Como citar?

    SILVA, Karla K. J. Portal Radio Islam. In: ENTEMPO Enciclopédia Eletrônica do Tempo Presente. Aracaju: Getempo. Disponível em: <http://enciclopedia.getempo.org/2021/04/22/portal-radio-islam/>. Verbete da Enciclopédia.